quarta-feira, 21 de março de 2018

Sobre relacionamentos

Eu estou lendo um livro e ele está mexendo comigo de várias formas: mudando pensamentos e crenças que eu tinha durante muito tempo, lembrando e superando coisas que estavam escondidas no meu inconsciente (sabe aquelas coisas que nos magoam, mas que a gente engole e deixa em um cantinho escondido para lidar quando tiver um tempo e depois e nunca mais resolve?). Pois bem! Esse livro é assim! Em cada capítulo ele fala sobre uma história antiga, um conto, uma lenda, e relaciona com situações da vida. O último capítulo que eu li, fala sobre relacionamento, não só o amoroso, mas o relacionamento entre amigos, família e até sobre seu relacionamento com você mesma.
A autora explica que atualmente temos uma recusa de deixar vir à tona todos os ciclos nos nossos relacionamentos, e é aí que vivemos aquela situação forçada de "nunca ficaremos tristes", "estarei sempre sorrindo ao seu lado", "somos uma família perfeita", "você é meu melhor amigo da vida inteira e nunca vou te deixar", mas para ela, é esse desejo de forçar o amor a ser somente positivo que faz com que o amor acabe morrendo.
Eu concordo com ela, claro que eu acho que o contrário também é tão desastroso quanto, viver apenas brigando, chorando e irritado também não faz do seu relacionamento (seja ele com quem for) algo positivo. O que ela explica no capítulo é que quando, por exemplo, o casal é capaz de suportar a natureza de ambos, integralmente, com todas as suas alegrias e dificuldades, eles se fortalecem.
Ela ainda diz que, muitas vezes, aquela dificuldade que transparece no outro, é a dificuldade que escondemos em nós mesmo e que quando ficamos dispostos a desembaraçar todas essas "complicações" inerentes em todas as pessoas, começamos a desembaraçar nossos próprios nós. E é por isso que não é fácil ter um relacionamento assim, mais profundo, onde confiamos no outro de forma mais integral possível, porque ficamos com medo de lidar com nossas confusões, temos medo de confiar, ficamos lembrando de outras pessoas que não mereceram nossa confiança e nos machucaram, mas se machucar faz parte de toda embrenhada, o medo faz parte de toda aventura. Ela diz que podemos sim, aprender com os erros, mas nunca se fechar para novas experiências.
Duro, né? Pra mim, esse livro está sendo um soco no estômago atrás do outro. E eu acho que isso é que mais mexeu comigo. Ele cutuca nossas feridas, fala sem pudores, sem passar a mão na cabeça, mostra onde estamos errando e o que precisamos mudar. Está sendo muito importante para mim nesse período dos quase trinta, está me ajudando a ver as coisas com mais clareza, firmeza e seguindo minha intuição. E pensando nisso tudo fiquei com vontade de escrever sobre, quem sabe talvez você também não está precisando de um empurrãozinho.

"Amar significa abraçar e ao mesmo tempo suportar inúmeros finais e inúmeros recomeços - todos nos mesmo relacionamento" (Clarissa Pinkola Estés).

quinta-feira, 1 de março de 2018

Filhos enfermiços


Ela me mandou uma mensagem no WhatsApp: “preciso falar com você.”. Era uma quinta-feira e eu estava em casa escrevendo um conto. Chovia. Respondi e combinei de me encontrar com ela no barzinho que a gente sempre frequenta. “Às 19h, pode ser?”. “Pode ser”. Terminei o conto, tomei banho, me troquei e saí. Havia parado de chover e o Sol refletia nas poças deixadas por aquela breve e violenta chuva de verão. Presenciei um quase acidente a duas quadras da minha casa. “Filho da puta!”, gritava uma senhora dentro de Uno. Um cara de moto não havia respeitado o sinal de pare e tirou uma fina do velho Fiat. Eu parei e esperei ela passar. Cheguei no bar em 10 minutos.
Estava vazio. Ainda era cedo, as pessoas só começariam a chegar depois das 20h. Entrei e sentei na mesa mais distante da entrada, encostado na parede, de forma que fosse possível observar todas as pessoas que entrassem no ambiente. Eu tenho essa mania. Gosto de ver tudo que acontece para poder escrever depois. Um ladrão de situações e personagens, um verdadeiro criminoso, culpado e confesso, é o que eu sou. O garçom me trouxe um cardápio que eu nem abri. Dez minutos depois, ele voltou perguntando se eu queria alguma coisa. Respondi que estava esperando uma pessoa e não queria nada por enquanto. Ele disse que tudo bem e se afastou.
Garçons são sempre figuras interessantes. Esse que me atendeu era um jovem de cabelo bem cortado e sem um pelo no rosto. Devia ter uns 16 anos. Provavelmente estudava de manhã e trabalhava à noite para ajudar a família. Ou talvez fosse da família do dono do bar. Fiquei pensando nisso enquanto esperava Vanessa. Ela chegou já eram 19h40, atrasada como sempre. Eu já havia parado de pensar na história de vida do garçom há tempos. A minha sorte foi que eu havia levado meu Kindle e fiquei esperando na agradável e sombria companhia de Edgar Allan Poe e suas histórias extraordinárias.
Quando Vanessa apareceu, acenei e ela me viu. Estava com uma saia florida e uma cropped preto que valorizava seus lindos seios e sua barriga magra. Sorriu-me um sorriso meio desajeitado e me abraçou. Sentamo-nos e ela me perguntou como estavam as coisas. Respondi o clássico e falso “tudo bem”. Falei sobre o trabalho e os estudos, alguns problemas da família. Ela se mostrava interessada e compreensiva, balançando a cabeça afirmativamente para as minhas divagações. O garçom se aproximou da mesa novamente e perguntou se queríamos algo. Vanessa me perguntou se eu iria beber. Respondi que sim e pedi uma Heineken, que eu sabia ser a cerveja favorita dela. Ela pediu uma porção de frango a passarinho.
Pedido feito, perguntei como ela estava e porque queria falar comigo. Olhei aqueles olhos castanhos, atrás de uma armação roxa com lentes antirreflexo, e eles me davam uma sensação de melancolia. O rosto ali na minha frente, tão lindo e delicado, era o rosto de uma pessoa amargurada. Percebi isso antes de ela começar a se abrir para mim. Percebi porque me vi refletido naquela face tão atraente. Vanessa era como eu. Éramos dois filhos enfermiços da vida, tanto quanto Hans Castorp naquela montanha mágica. Ela ajeitou os óculos e abriu a boca pequena e vermelha para me contar o que a esmorecia. Ajeitei-me na cadeira e foquei, ainda mais, minha atenção nela. O garçom chegou com a cerveja.
Vanessa me contou que estava desiludida. Relatou todas as suas tristezas. A maior delas era estar sozinha. Disse que tinha 28 anos e se sentia velha, que seus namoros não haviam dado certo e que não conseguia encontrar ninguém. Tinha medo de não encontrar ninguém. Relacionou todas as amigas da escola, casadas e com filhos. Sentia-se isolada em um mundo de pares. Enquanto bebia a cerveja, narrou todas as suas frustradas tentativas de relacionamento, todas as traições de caras que não a respeitavam. Perguntou-me se havia algo de errado com ela. Perguntou-me o porquê da sua solidão.
Eu não sabia responder. Vanessa é linda e talentosa, uma mulher independente com uma carreira profissional estruturada, boa de papo e boa de corpo. Um bom partido, como diria minha tia. Fui clichê. Disse que a culpa não era dela, que a pessoa certa iria aparecer. Tirei, da cabeça dela, a ideia de ser velha para começar algo novo com alguém. Dei esperanças a ela. Naquele momento, deixei de ser o pessimista de sempre para ver um olhar de fé em Vanessa. Ela acreditava em mim e confiava no que eu dizia. Senti-me bem e sorri para ela, que devolveu um sorriso alegre. O garçom trouxe a porção de frango a passarinho.
Comemos e bebemos e conversamos durante mais duas horas. Foi divertido e revigorante para nós. Falamos sobre diversos assuntos, comprovando a ideia que eu tinha de Vanessa: uma pessoa interessante que estava sozinha apenas porque escolhia os caras errados. Ao ir embora, despedi-me dela com um abraço forte e demorado. Olhamo-nos com ternura e fomos cada um para um lado. O que eu queria mesmo era levar Vanessa para casa. O que ela queria mesmo era me levar para casa. Queríamos passar a noite juntos em uma cama, mas não podíamos. Éramos amigos há muito tempo e ela não ultrapassaria esse limite por nada. Além disso, eu tinha Anna me esperando em casa e Vanessa gostava demais dela. Naquela noite, nossa vontade foi suprimida e nossa amizade, fortificada.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Os medos se tornam adultos.

Quando a gente é criança, temos medo do escuro, do bicho papão, do homem do saco, de ficarmos sozinho, daquele pesadelo de toda noite. Então vamos crescendo, e aprendemos a enfrentar esses medos, descobrimos que bicho papão não existe, que o escuro é exatamente igual quando há luz, os pesadelos passam.
Mas enquanto crescemos, não deixamos de ter medo, ele sempre vai nos acompanhando. Os medos vão se tornando adultos também. Temos medo de fracassar, medo de ser diferente, medo de coisas que fazemos, medo de coisas que não temos coragem de fazer. Esses medos não podem ser enfrentados com um simples acender de luz ou uma lanterna, eles nos perseguem, nos enfraquecem e como já dizia Mestre Yoda, nos levam ao lado negro da força.
Eu nunca tive medo de dirigir, por mais que eu não gostasse tanto, sempre entendi como uma necessidade, uma forma de chegar onde eu queria sem depender tanto de outras pessoas, mas algumas pessoas começaram a me colocar medo (sim, existem pessoas que são mestras nisso, as mães, por exemplo, fazem um intensivão antes de dar a luz), começaram a dizer que eu não seria capaz de dirigir sozinha na estrada, que era perigoso, que eu não deveria fazer.
Durante um bom tempo eu comecei a acreditar nisso também, sentia medo de dirigir sozinha porque não me sentia capaz, e isso já estava me incomodando bastante. Foi então que surgiu a oportunidade, e eu fui, e deu tudo certo. Enfrentei esse medo que criaram para mim.
O que eu quero dizer com essa balela toda é que eu acredito que o medo seja uma forma de proteção, mas também que ele existe para ser enfrentado. Então, fique perto de pessoas que te incentivem a superar seus medos, que te dão coragem e um chacoalhão de vez em quando. Muitas vezes é necessário. 

“O medo é o caminho para o lado negro. O medo leva a raiva, a raiva leva ao ódio, o ódio leva ao sofrimento.” 
― Mestre Yoda (Star Wars: Episódio 3)


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Tarde de janeiro

– Por que você é assim? – Anna me perguntou.
– Assim como?
Era uma tarde de janeiro. Estávamos na sorveteria. Eu com um copo de sorvete de chocolate, ela com uma casquinha de sorvete de flocos. Lá fora, chovia uma daquelas chuvas adoráveis, que fazem um barulho propício para um cochilo. Chovia sem parar há duas semanas. Dentro da sorveteria, só eu e ela e dois funcionários, um adolescente magro de óculos que lembrava o McLovin de Superbad e uma senhora de meia idade com cabelos tingidos de acaju e uma fisionomia alegre demais para alguém que trabalha aos domingos. Olhávamos os caras passando na rua em uma pressa costumeira. Não importava se era domingo e ninguém tinha nada para fazer, a pressa é parceira sempre.
– Assim, pessimista e desacreditado. Você vive se autossabotando. Isso não é legal.
– Eu não sou legal. – respondi com um riso pois sabia que iria irritá-la.
– Aí, é disso que estou falando, Felipe. Você é um cara legal, as pessoas te amam e você não consegue perceber isso.
– As pessoas me amam?
– Você sabe que tem um monte de gente que gosta muito de você e que quer te ver bem.
– Você me ama?
– Eu te amo muito.
– Diz de novo.
– Eu te amo.
– Outra vez.
– Eu te amo.
– Você disse três vezes.
– E vou dizer quantos vezes for preciso, até você colocar na sua cabeça que é verdade e que você merece esse amor.
Abaixei a cabeça. Tomei uma colherada do sorvete que já estava no fim. O dela ainda estava na metade. Eu sempre fui mais rápido que ela para terminar de comer. Somos muito diferentes, na verdade. Ela gosta de séries, eu gosto de cinema. Ela gosta de Jane Austen e eu gosto de Ernest Hemingway. Ela gosta de música pop e eu de rock’n’roll. Ela é de câncer e eu de gêmeos, mas isso não importa porque eu não acredito em signos. Ela odeia cerveja e eu vivo ficando bêbado. Ela é otimista e eu sou um pessimista. Ela me ama e eu a amo e nós juramos ficar juntos o resto da vida.
Levantei a cabeça e lhe pedi um beijo. Beijamo-nos e ela me deu um abraço apertado dizendo novamente que me amava. Terminei meu sorvete e fiquei olhando-a terminar o dela. Lá fora, a chuva cessara e o Sol tentava aparecer, tímido como Donnie Darko. Uma mulher entrou com uma criança na sorveteria. A criança tinha mais ou menos uns seis anos. A mulher era uma linda jovem de cabelo preto e curto e de pele branca. Usava calça jeans e uma regata curta que mostrava a parte de baixo da sua barriga. Era magra e aparentava ter uns 20 e poucos anos. Ela deve ter tido o filho muito nova ou talvez seja o sobrinho, pensei. Trocamos olhares quando ela entrou e vi nela um rosto condescendente de uma jovem feliz.
– Moça bonita né? – comentei com Anna.
– Eu vi que ela te olhou e que você olhou para ela.
Ri com vergonha e disse que a amava. Ela me respondeu como Han Solo:
– Eu sei.
– Qual é a sua maior tristeza na vida?
– Não sei, talvez seja não me dar tão bem com a minha família. Por que pergunta?
– Porque estou triste e quero falar sobre tristezas.
– Então me diz, qual é a sua maior tristeza na vida?
– Pagar impostos – eu disse sorrindo.
– Isso é realmente triste, mas esse não é o real motivo dessa sua tristeza.
– Bem, você sabe.
– Eu sei – ela falou, logo depois de terminar seu sorvete e antes de me dar um forte abraço.


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Quem muito ri em um dia, chora em outro

Quando eu era criança, minha mãe usava uma frase que ela sempre dizia quando eu e meus irmãos ficávamos brincando e rindo muito: "quem muito ri em um dia, chora em outro". Uma frases boba, muito provavelmente falada em momentos em que nós três extrapolávamos nas brincadeiras e acabávamos atrapalhando de alguma forma.
Quando meu namorado ouviu essa história ele me disse que então entendia o porque eu sempre achava que algo de muito ruim aconteceria comigo. Eu, psicóloga, que já havia feito terapia por algum tempo, em nenhum momento tive esse insight. Apesar de saber que o objetivo da minha mãe ao falar essa frase não era esse, eu percebi o quanto efeito essas simples palavras fizeram no meu desenvolvimento emocional.
Toda vez que eu percebo que as coisas estão calmas, que está tudo bem, meu coração já se agita esperando que algo muito ruim vai acontecer, ou algo que, nem é tão ruim assim, mas que minha ansiedade percebe como ameaça e que vai me desestruturar de alguma forma. Inevitavelmente, algo realmente acontece. Então eu penso: "ah lá! não falei que ia acontecer".
Mas aí que vem o pulo do gato, algo sempre vai acontecer! A vida não é linear! Todo mundo tem altos e baixos, todo mundo passa por situações que nos abalam emocionalmente. Então é óbvio que meu medo de ameaças vai se concretizar, mas não porque eu estava feliz em um dia, sorrindo muito e despreocupada, não porque eu baixei a guarda, simplesmente porque é assim que é! Estamos aqui, nesse mundo, para isso mesmo, sem essas frustrações não amadurecemos.
Essa pequena revelação me faz tirar duas conclusões: o quanto temos que tomar cuidado com o que falamos, principalmente em relação às crianças e o quanto temos certezas absolutas, que estão totalmente erradas, enraizadas dentro da gente e nós ficamos repetindo-as sem saber o motivo.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Fritas com cheddar e bacon

Percebi que estava começando a ficar deprimido e me sentia sozinho. A sensação de solidão é capaz de corroer um homem. A solidão é tão necessária quanto maldita. Naquele dia, eu não estava a fim de ficar sozinho. Mandei uma mensagem para Vanessa: “Vai pra onde hoje?”. A resposta veio quase no fim da tarde: “Vamos pro Red Apple, você vai?” Ela usou “vamos” porque nunca saía sozinha. Tinha sempre uma amiga ou mais gente junto. Respondi que iria e pedi para guardar um lugar na mesa.
Cheguei no bar. Acredito que eram umas 20h, mas como sempre fico perdido no horário de verão, talvez já fossem 21h. Odeio horário de verão. O pessoal já estava lá. O pessoal era Vanessa, Naiara e Pedro. Cumprimentei-os. Eles disseram que haviam acabado de chegar e não tinham pedido nada ainda. O lugar não estava lotado. Haviam três mesas ocupadas além da nossa. Uma com um casal de jovens que namoravam a pouco tempo; sei disso porque eles não se desgrudaram a noite toda. Nas outras duas, uma galera grande comemorando aniversários; sei disso por causa dos parabéns cantados durante a noite.
Pedimos uma porção de batatas fritas com queijo cheddar e bacon. Já conhecíamos o lugar e sabíamos que a porção vinha abarrotada de batatas. Pedi uma Heineken que dividi com Vanessa. O bom de dividir cerveja com a Vanessa é que ela não tem o mesmo ritmo que eu tenho para beber. Logo, eu bebo sempre 3 quartos da garrafa e acabo pagando metade. Ótimo negócio. Naiara e Pedro pediram um litro de Coca-Cola. Tocava Barão Vermelho. “Pro dia nascer feliz”. Ainda não eram nem 10 da noite. Na TV, passava um jogo da Argentina sem volume. O Messi driblou dois zagueiros e tocou por cima do goleiro para fazer 2 a 0 para os hermanos. Exclamei:
– Que golaço! O Messi é pura poesia!
Começou a discussão.
– Poesia? Isso aí é só futebol. – disse Vanessa. Percebi que Naiara concordou com ela enquanto Pedro apenas enchia o copo de Coca-Cola. Comecei minha explanação:
– Mas não pode haver poesia no futebol? Poesia agora só cabe nos livros?
Pronto. Vanessa já estava puta porque sabia que aquilo iria longe. Eu tenho um monte de teorias malucas que começo a expor de forma empolgada quando sou perguntado sobre elas. Vanessa sabia disso e já antecipou:
– Tudo bem, o Messi é poesia mesmo.
Tarde demais. Eu já estava com o discurso pronto.
– Claro que é. Existe uma diferença entre poesia e poema. Sabia?
Ela não sabia. Continuei:
– Poema é aquele que você lê nos livros. Drummond, Pessoa, Leminski. Esses caras faziam poemas, mas também faziam poesia.
Naiara e Pedro voltaram a atenção deles para mim. Agora eu já tinha um público maior. Aquele sentimento de solidão acabou ali. Eu estava eufórico e envolto em júbilo. Era daquilo que eu precisava. Pedro foi o primeiro a perguntar:
– Como assim, Felipe?
– Elementar, meu caro. A poesia está em tudo, está à sua volta. É só olhar pro lado. Esse bar com aquela galera toda reunida, esses quadros na parede, essa cerveja gelada em cima da mesa. É tudo poesia. A poesia não está nos livros com uma letra do lado da outra. A poesia tá em qualquer lugar onde seja possível ver beleza. Poesia é beleza. Cada amanhecer e cada pôr do sol, cada árvore, cada estrela, cada gota de chuva e cada indivíduo. Tem poesia em você e tem poesia em mim também. É só olhar com sensibilidade. Há poesia na vida.
– E na morte? – provocou Vanessa.
– Se há poesia na vida, também deve haver na morte. Só não há poesia, de jeito nenhum, na corrupção e no totalitarismo.
Depois de uma pausa tchekoviana, começou uma cantoria. “PARABÉNS PRA VOCÊ, NESSA DATA QUERIDA...”