quinta-feira, 9 de novembro de 2017

A doçura e a culpa de fazer nada

Quando eu era mais nova, eu li um livro que contava sobre as aventuras de Elizabeth Gilbert, uma mulher de 30 anos que teve uma crise de identidade e foi viajar pelo mundo para se encontrar e em cada país ela aprendia algo diferente. Uma das minhas partes favoritas era a Itália, onde ela reencontrava o prazer de comer e aprendia sobre "dolce far niente", a doçura de fazer nada, algo que segundo o livro, os italianos fazem com maestria.
Hoje, lembrando daquele livro, eu fico pensando em como a forma que eu fui criada foi diferente dessa filosofia dos italianos. Como é difícil ficar sem fazer nada sem se sentir julgado ou  culpado. Os finais de semana, os feriados prolongados, as férias do trabalho, eu sempre me forçava a fazer algo "útil" com meu tempo. Tinha que terminar de ler um livro, organizar minhas coisas, começar a fazer exercícios, sair para conhecer novos lugares, me sentir produtiva. Dormir até tarde? Jamais! Quando o final de semana havia acabado eu estava ainda mais cansada do que antes. Não um cansaço físico eu sei, mas eu me sentia exausta.
Ficar em casa, deitada, olhando pro nada era algo inconcebível, estava acontecendo alguma coisa muito errada comigo se eu ficasse com essa vontade de "fazer nada". Então vem aquela desculpa do Netflix: vou ficar em casa para poder colocar aquela série em dia. Mas não é isso que minha mente está precisando, entende? Não é enchê-la com mais conteúdo. Por mais divertida ou interessante que a série ou o filme sejam, às vezes, eu só quero ficar sem fazer nada! Aquele nada tranquilo um pouco antes de pegar no sono. Esse nada!
Percebi que eu fui criando, durante toda vida, umas culpas desnecessárias. A vida já é complicada o suficiente para que a gente crie pesos e responsabilidades que não fazem o menor sentindo. Foi quando, depois de terapia, eu compreendi que o meu medo de ser julgada por não fazer nada [e muitos outros] era sem sentindo. Na verdade, a única pessoa que me julgava era eu mesma.
No último feriado prolongado eu saí sim, fui assisti série, mas também me permiti ficar deitada, olhando para o teto, me permiti até mesmo tirar um cochilo à tarde. Confesso, que fiquei esperando que em algum momento, a culpa chegasse e jogasse as cartas na mesa, que eu me sentisse mal por estar "desperdiçando meu tempo", mas curiosamente ela não chegou. Hoje, me sinto mais descansada e com a certeza de que adoçarei mais meu tempo nos finais de semana.

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