quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Fritas com cheddar e bacon

Percebi que estava começando a ficar deprimido e me sentia sozinho. A sensação de solidão é capaz de corroer um homem. A solidão é tão necessária quanto maldita. Naquele dia, eu não estava a fim de ficar sozinho. Mandei uma mensagem para Vanessa: “Vai pra onde hoje?”. A resposta veio quase no fim da tarde: “Vamos pro Red Apple, você vai?” Ela usou “vamos” porque nunca saía sozinha. Tinha sempre uma amiga ou mais gente junto. Respondi que iria e pedi para guardar um lugar na mesa.
Cheguei no bar. Acredito que eram umas 20h, mas como sempre fico perdido no horário de verão, talvez já fossem 21h. Odeio horário de verão. O pessoal já estava lá. O pessoal era Vanessa, Naiara e Pedro. Cumprimentei-os. Eles disseram que haviam acabado de chegar e não tinham pedido nada ainda. O lugar não estava lotado. Haviam três mesas ocupadas além da nossa. Uma com um casal de jovens que namoravam a pouco tempo; sei disso porque eles não se desgrudaram a noite toda. Nas outras duas, uma galera grande comemorando aniversários; sei disso por causa dos parabéns cantados durante a noite.
Pedimos uma porção de batatas fritas com queijo cheddar e bacon. Já conhecíamos o lugar e sabíamos que a porção vinha abarrotada de batatas. Pedi uma Heineken que dividi com Vanessa. O bom de dividir cerveja com a Vanessa é que ela não tem o mesmo ritmo que eu tenho para beber. Logo, eu bebo sempre 3 quartos da garrafa e acabo pagando metade. Ótimo negócio. Naiara e Pedro pediram um litro de Coca-Cola. Tocava Barão Vermelho. “Pro dia nascer feliz”. Ainda não eram nem 10 da noite. Na TV, passava um jogo da Argentina sem volume. O Messi driblou dois zagueiros e tocou por cima do goleiro para fazer 2 a 0 para os hermanos. Exclamei:
– Que golaço! O Messi é pura poesia!
Começou a discussão.
– Poesia? Isso aí é só futebol. – disse Vanessa. Percebi que Naiara concordou com ela enquanto Pedro apenas enchia o copo de Coca-Cola. Comecei minha explanação:
– Mas não pode haver poesia no futebol? Poesia agora só cabe nos livros?
Pronto. Vanessa já estava puta porque sabia que aquilo iria longe. Eu tenho um monte de teorias malucas que começo a expor de forma empolgada quando sou perguntado sobre elas. Vanessa sabia disso e já antecipou:
– Tudo bem, o Messi é poesia mesmo.
Tarde demais. Eu já estava com o discurso pronto.
– Claro que é. Existe uma diferença entre poesia e poema. Sabia?
Ela não sabia. Continuei:
– Poema é aquele que você lê nos livros. Drummond, Pessoa, Leminski. Esses caras faziam poemas, mas também faziam poesia.
Naiara e Pedro voltaram a atenção deles para mim. Agora eu já tinha um público maior. Aquele sentimento de solidão acabou ali. Eu estava eufórico e envolto em júbilo. Era daquilo que eu precisava. Pedro foi o primeiro a perguntar:
– Como assim, Felipe?
– Elementar, meu caro. A poesia está em tudo, está à sua volta. É só olhar pro lado. Esse bar com aquela galera toda reunida, esses quadros na parede, essa cerveja gelada em cima da mesa. É tudo poesia. A poesia não está nos livros com uma letra do lado da outra. A poesia tá em qualquer lugar onde seja possível ver beleza. Poesia é beleza. Cada amanhecer e cada pôr do sol, cada árvore, cada estrela, cada gota de chuva e cada indivíduo. Tem poesia em você e tem poesia em mim também. É só olhar com sensibilidade. Há poesia na vida.
– E na morte? – provocou Vanessa.
– Se há poesia na vida, também deve haver na morte. Só não há poesia, de jeito nenhum, na corrupção e no totalitarismo.
Depois de uma pausa tchekoviana, começou uma cantoria. “PARABÉNS PRA VOCÊ, NESSA DATA QUERIDA...”




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