quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O reencontro

Saí da faculdade depois das primeiras aulas. Não estava com saco para a aula de ética. Precisava descansar de tudo o que aconteceu nos últimos dias e também tinha que ir à farmácia comprar os remédios novos que o médico me passou e que todos ficam vigiando para ver se eu estou mesmo tomando. Às vezes, consigo ficar sem tomar. Estou de saco cheio de tomar remédio. Saí da faculdade sem me despedir de ninguém, apenas cumprimentei a garota que faz pedagogia e fica sempre sentada no mesmo banco no corredor. Eu conversava com ela algumas vezes, mas ela é tão introspectiva quanto eu.
Era uma quinta-feira e o bar da esquina estava lotado. Podia tomar uma cerveja, pensei. Segui o meu caminho até o carro. Havia um casalzinho se pegando debaixo de uma árvore.  Eles acham que a sombra é suficientemente escura para que ninguém veja os movimentos das mãos e pernas dos dois. A sombra nunca é escura o suficiente, mas o desejo sempre fala mais alto. Quem já teve uma paixão sabe como é, a gente fica louco. Entrei no carro e dei a partida sem ligar o rádio. Só toca sertanejo naquela merda e eu tinha esquecido o pen drive em casa. Nota mental: preciso comprar um pen drive maior porque eu vivo esquecendo e perdendo o meu. Talvez um de cor mais chamativa já resolva o meu problema.
Demorei vinte minutos para atravessar o quarteirão da faculdade porque o povo fica na rua bebendo cerveja e os motoristas do interior não sabem lidar com trânsito. Me deu uma sede danada de cerveja. Continuei dirigindo até a farmácia. Por sorte, peguei todos os semáforos abertos e cheguei lá em dez minutos. Estacionei o carro atrás de uma S-10 prata que também acabara de estacionar. O motorista era um senhor de mais ou menos 50 anos com um bigode de respeito e um chapéu de cowboy. Deve ser fazendeiro ou coisa que o valha, pensei. Peguei as receitas, saí do carro, travei as portas e conferi duas vezes se elas estavam mesmo fechadas. Entrei na farmácia sem olhar para trás.
Entreguei as receitas para a farmacêutica. Ela era uma gordinha de cabelo loiro tingido e parecia ter uns 35 anos. Era simpática como a maioria dos farmacêuticos. Flávia, estava escrito no crachá. Pediu para que eu aguardasse um momento e subiu as escadas para buscar os remédios. Provavelmente são medicamentos que não podem ficar ao alcance das pessoas. Ou apenas faltou espaço nas prateleiras de baixo e eles tiveram que colocar alguns remédios lá em cima. Percebi que a segunda hipótese era mais provável e menos paranoica. Ela voltou com os remédios, eu agradeci e fui para o caixa. No caminho até lá, peguei um Halls preto e duas barras de chocolate: uma ao leite e uma de meio amargo.
Havia seis pessoas na fila. Uma senhora de idade com uma moça que eu pensei ser a neta (bonita neta, por sinal); uma jovem toda de branco que provavelmente estuda enfermagem ou nutrição ou fisioterapia ou qualquer outra coisa onde as meninas se orgulham de usar branco; um senhor de meia idade com cabelo ralo e um óculos, parecido com o do Austin Powers, que não ficava bem no rosto dele; o fazendeiro da S-10 e por fim, bem na minha frente, uma garota mais ou menos da minha idade, com luzes no cabelo, uma camiseta rosa e calça jeans. Eu logo percebi que a conhecia. Cutuquei-a. Ela se virou, me olhou com cara de desconfiada por alguns segundos, até abrir um sorriso.
– Felipe! – disse ao me abraçar.
– Olá, Bruna.
– Quanto tempo, não? O que você tá fazendo aqui?
– Saí da faculdade e passei aqui para comprar uns remédios. Mas me diz, como você tá?
– Tô bem – ela respondeu com uma voz cansada. – E você?
– Tô bem também – respondi com uma voz também cansada.
Era óbvio que não estávamos bem. Mas quem está? Ela me falou sobre o trabalho e me perguntou sobre a faculdade. Eu falei sobre a faculdade e perguntei onde ela estava morando. Ela me disse que morava ali perto e que a gente podia combinar alguma coisa qualquer dia. Eu respondi que já estava ansioso por isso. Rimos e chegou a vez dela no caixa. Ela se despediu de mim e foi pagar a conta. O próximo caixa me chamou.
– Boa noite. CPF na nota?
Respondi que não. Paguei com dinheiro, peguei o troco e saí. Entrei no carro e liguei o rádio. Sertanejo. Mudei de estação, A voz do Brasil. Desliguei o rádio e dei partida. Já não estava chateado de ter que tomar os remédios e me peguei com um sorriso no rosto.




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