sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Tarde de janeiro

– Por que você é assim? – Anna me perguntou.
– Assim como?
Era uma tarde de janeiro. Estávamos na sorveteria. Eu com um copo de sorvete de chocolate, ela com uma casquinha de sorvete de flocos. Lá fora, chovia uma daquelas chuvas adoráveis, que fazem um barulho propício para um cochilo. Chovia sem parar há duas semanas. Dentro da sorveteria, só eu e ela e dois funcionários, um adolescente magro de óculos que lembrava o McLovin de Superbad e uma senhora de meia idade com cabelos tingidos de acaju e uma fisionomia alegre demais para alguém que trabalha aos domingos. Olhávamos os caras passando na rua em uma pressa costumeira. Não importava se era domingo e ninguém tinha nada para fazer, a pressa é parceira sempre.
– Assim, pessimista e desacreditado. Você vive se autossabotando. Isso não é legal.
– Eu não sou legal. – respondi com um riso pois sabia que iria irritá-la.
– Aí, é disso que estou falando, Felipe. Você é um cara legal, as pessoas te amam e você não consegue perceber isso.
– As pessoas me amam?
– Você sabe que tem um monte de gente que gosta muito de você e que quer te ver bem.
– Você me ama?
– Eu te amo muito.
– Diz de novo.
– Eu te amo.
– Outra vez.
– Eu te amo.
– Você disse três vezes.
– E vou dizer quantos vezes for preciso, até você colocar na sua cabeça que é verdade e que você merece esse amor.
Abaixei a cabeça. Tomei uma colherada do sorvete que já estava no fim. O dela ainda estava na metade. Eu sempre fui mais rápido que ela para terminar de comer. Somos muito diferentes, na verdade. Ela gosta de séries, eu gosto de cinema. Ela gosta de Jane Austen e eu gosto de Ernest Hemingway. Ela gosta de música pop e eu de rock’n’roll. Ela é de câncer e eu de gêmeos, mas isso não importa porque eu não acredito em signos. Ela odeia cerveja e eu vivo ficando bêbado. Ela é otimista e eu sou um pessimista. Ela me ama e eu a amo e nós juramos ficar juntos o resto da vida.
Levantei a cabeça e lhe pedi um beijo. Beijamo-nos e ela me deu um abraço apertado dizendo novamente que me amava. Terminei meu sorvete e fiquei olhando-a terminar o dela. Lá fora, a chuva cessara e o Sol tentava aparecer, tímido como Donnie Darko. Uma mulher entrou com uma criança na sorveteria. A criança tinha mais ou menos uns seis anos. A mulher era uma linda jovem de cabelo preto e curto e de pele branca. Usava calça jeans e uma regata curta que mostrava a parte de baixo da sua barriga. Era magra e aparentava ter uns 20 e poucos anos. Ela deve ter tido o filho muito nova ou talvez seja o sobrinho, pensei. Trocamos olhares quando ela entrou e vi nela um rosto condescendente de uma jovem feliz.
– Moça bonita né? – comentei com Anna.
– Eu vi que ela te olhou e que você olhou para ela.
Ri com vergonha e disse que a amava. Ela me respondeu como Han Solo:
– Eu sei.
– Qual é a sua maior tristeza na vida?
– Não sei, talvez seja não me dar tão bem com a minha família. Por que pergunta?
– Porque estou triste e quero falar sobre tristezas.
– Então me diz, qual é a sua maior tristeza na vida?
– Pagar impostos – eu disse sorrindo.
– Isso é realmente triste, mas esse não é o real motivo dessa sua tristeza.
– Bem, você sabe.
– Eu sei – ela falou, logo depois de terminar seu sorvete e antes de me dar um forte abraço.


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