quinta-feira, 1 de março de 2018

Filhos enfermiços


Ela me mandou uma mensagem no WhatsApp: “preciso falar com você.”. Era uma quinta-feira e eu estava em casa escrevendo um conto. Chovia. Respondi e combinei de me encontrar com ela no barzinho que a gente sempre frequenta. “Às 19h, pode ser?”. “Pode ser”. Terminei o conto, tomei banho, me troquei e saí. Havia parado de chover e o Sol refletia nas poças deixadas por aquela breve e violenta chuva de verão. Presenciei um quase acidente a duas quadras da minha casa. “Filho da puta!”, gritava uma senhora dentro de Uno. Um cara de moto não havia respeitado o sinal de pare e tirou uma fina do velho Fiat. Eu parei e esperei ela passar. Cheguei no bar em 10 minutos.
Estava vazio. Ainda era cedo, as pessoas só começariam a chegar depois das 20h. Entrei e sentei na mesa mais distante da entrada, encostado na parede, de forma que fosse possível observar todas as pessoas que entrassem no ambiente. Eu tenho essa mania. Gosto de ver tudo que acontece para poder escrever depois. Um ladrão de situações e personagens, um verdadeiro criminoso, culpado e confesso, é o que eu sou. O garçom me trouxe um cardápio que eu nem abri. Dez minutos depois, ele voltou perguntando se eu queria alguma coisa. Respondi que estava esperando uma pessoa e não queria nada por enquanto. Ele disse que tudo bem e se afastou.
Garçons são sempre figuras interessantes. Esse que me atendeu era um jovem de cabelo bem cortado e sem um pelo no rosto. Devia ter uns 16 anos. Provavelmente estudava de manhã e trabalhava à noite para ajudar a família. Ou talvez fosse da família do dono do bar. Fiquei pensando nisso enquanto esperava Vanessa. Ela chegou já eram 19h40, atrasada como sempre. Eu já havia parado de pensar na história de vida do garçom há tempos. A minha sorte foi que eu havia levado meu Kindle e fiquei esperando na agradável e sombria companhia de Edgar Allan Poe e suas histórias extraordinárias.
Quando Vanessa apareceu, acenei e ela me viu. Estava com uma saia florida e uma cropped preto que valorizava seus lindos seios e sua barriga magra. Sorriu-me um sorriso meio desajeitado e me abraçou. Sentamo-nos e ela me perguntou como estavam as coisas. Respondi o clássico e falso “tudo bem”. Falei sobre o trabalho e os estudos, alguns problemas da família. Ela se mostrava interessada e compreensiva, balançando a cabeça afirmativamente para as minhas divagações. O garçom se aproximou da mesa novamente e perguntou se queríamos algo. Vanessa me perguntou se eu iria beber. Respondi que sim e pedi uma Heineken, que eu sabia ser a cerveja favorita dela. Ela pediu uma porção de frango a passarinho.
Pedido feito, perguntei como ela estava e porque queria falar comigo. Olhei aqueles olhos castanhos, atrás de uma armação roxa com lentes antirreflexo, e eles me davam uma sensação de melancolia. O rosto ali na minha frente, tão lindo e delicado, era o rosto de uma pessoa amargurada. Percebi isso antes de ela começar a se abrir para mim. Percebi porque me vi refletido naquela face tão atraente. Vanessa era como eu. Éramos dois filhos enfermiços da vida, tanto quanto Hans Castorp naquela montanha mágica. Ela ajeitou os óculos e abriu a boca pequena e vermelha para me contar o que a esmorecia. Ajeitei-me na cadeira e foquei, ainda mais, minha atenção nela. O garçom chegou com a cerveja.
Vanessa me contou que estava desiludida. Relatou todas as suas tristezas. A maior delas era estar sozinha. Disse que tinha 28 anos e se sentia velha, que seus namoros não haviam dado certo e que não conseguia encontrar ninguém. Tinha medo de não encontrar ninguém. Relacionou todas as amigas da escola, casadas e com filhos. Sentia-se isolada em um mundo de pares. Enquanto bebia a cerveja, narrou todas as suas frustradas tentativas de relacionamento, todas as traições de caras que não a respeitavam. Perguntou-me se havia algo de errado com ela. Perguntou-me o porquê da sua solidão.
Eu não sabia responder. Vanessa é linda e talentosa, uma mulher independente com uma carreira profissional estruturada, boa de papo e boa de corpo. Um bom partido, como diria minha tia. Fui clichê. Disse que a culpa não era dela, que a pessoa certa iria aparecer. Tirei, da cabeça dela, a ideia de ser velha para começar algo novo com alguém. Dei esperanças a ela. Naquele momento, deixei de ser o pessimista de sempre para ver um olhar de fé em Vanessa. Ela acreditava em mim e confiava no que eu dizia. Senti-me bem e sorri para ela, que devolveu um sorriso alegre. O garçom trouxe a porção de frango a passarinho.
Comemos e bebemos e conversamos durante mais duas horas. Foi divertido e revigorante para nós. Falamos sobre diversos assuntos, comprovando a ideia que eu tinha de Vanessa: uma pessoa interessante que estava sozinha apenas porque escolhia os caras errados. Ao ir embora, despedi-me dela com um abraço forte e demorado. Olhamo-nos com ternura e fomos cada um para um lado. O que eu queria mesmo era levar Vanessa para casa. O que ela queria mesmo era me levar para casa. Queríamos passar a noite juntos em uma cama, mas não podíamos. Éramos amigos há muito tempo e ela não ultrapassaria esse limite por nada. Além disso, eu tinha Anna me esperando em casa e Vanessa gostava demais dela. Naquela noite, nossa vontade foi suprimida e nossa amizade, fortificada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário